Transporte Marítimo, Carbono e as Regras do Jogo

September 11, 2026 | Posted by Datamar

Transporte Marítimo, Carbono e as Regras do Jogo

Uma viagem marítima conecta diferentes responsabilidades sobre as emissões de gases de efeito estufa. O armador opera a embarcação, o terminal movimenta a carga e o exportador ou importador contrata o transporte. Todos participam da mesma cadeia, mas cada organização precisa compreender como essas atividades entram em seu inventário de emissões e quais decisões podem contribuir para reduzi-las.

É nesse contexto que atua o DatamarLab, iniciativa da Datamar que está construindo um modelo de Tomada de Decisão Colaborativa — CDM, na sigla em inglês — para o transporte marítimo sul-americano. A proposta é reunir armadores, embarcadores, terminais e reguladores em torno de dados independentes e cientificamente embasados.

Com foco inicial na descarbonização, o projeto busca transformar informações sobre viagens, embarcações e cargas em conhecimento para orientar decisões operacionais, avaliar alternativas e apoiar a preparação das empresas para exigências de monitoramento e divulgação de emissões.

Três escopos, diferentes responsabilidades

Os escopos organizam as emissões conforme sua relação com a empresa. O escopo 1 corresponde às emissões diretas de fontes próprias ou controladas; o escopo 2, às emissões associadas à geração da energia adquirida e consumida; e o escopo 3, às demais emissões indiretas da cadeia de valor. O GHG Protocol é uma das principais referências internacionais para essa contabilização.

Uma mesma emissão pode aparecer no escopo 1 de quem opera um navio e no escopo 3 de quem contrata o transporte. Isso representa perspectivas diferentes sobre a mesma atividade. Ao calcular o total de emissões da cadeia, porém, esses registros não devem ser simplesmente somados, pois isso duplicaria o impacto físico.

Para o DatamarLab, conectar essas perspectivas exige compreender quanto a embarcação emitiu, quais fatores determinaram esse resultado e como distribuir as emissões entre as cargas transportadas.

Armadores e operadores: compreender as emissões da viagem

Para armadores e operadores, o escopo 1 abrange a queima de combustível nas embarcações incluídas nos limites de seu inventário. Entram nessa conta o motor principal, os motores auxiliares e as caldeiras, durante a navegação, as escalas e os períodos de espera.

A distância percorrida é apenas uma das variáveis que influenciam o consumo. Velocidade, calado, características do navio, perfil da carga e tempo nos portos também afetam as emissões. Por isso, duas viagens com distâncias semelhantes podem apresentar pegadas de carbono diferentes.

Essa é uma das frentes de trabalho do DatamarLab: analisar a viagem por trecho e por componente de consumo, identificando diferenças que estimativas baseadas apenas em distância ou médias gerais podem deixar de captar.

O escopo 2 contempla a energia adquirida e consumida pela empresa, como a eletricidade utilizada em escritórios e instalações. Conforme os limites do inventário, também pode incluir a eletricidade recebida pelo navio durante a atracação.

Já o escopo 3 inclui as emissões da produção e do fornecimento dos combustíveis antes de sua utilização a bordo. Essa etapa é conhecida como well-to-tank, ou “do poço ao tanque”. Sua análise complementa a das emissões geradas pelo uso do combustível no navio.

Essa distinção ajuda a avaliar alternativas energéticas: o benefício climático de um combustível depende tanto de seu desempenho a bordo quanto das condições em que foi produzido e disponibilizado.

Portos e terminais: eletrificação e coordenação das operações

Nos portos e terminais, o escopo 1 inclui o combustível consumido por equipamentos próprios ou controlados, como veículos de pátio, máquinas de movimentação e geradores a diesel.

O escopo 2 está relacionado à eletricidade adquirida para guindastes, instalações, iluminação e contêineres refrigerados. Substituir equipamentos a diesel por elétricos reduz a combustão direta, mas torna a origem da eletricidade e a eficiência energética ainda mais relevantes para o resultado ambiental.

O fornecimento de energia em terra às embarcações atracadas, conhecido como shore power ou cold ironing, também pode reduzir o funcionamento dos geradores a bordo. O benefício climático depende da fonte de eletricidade, enquanto sua contabilização exige distinguir a energia consumida pelo terminal daquela fornecida ao navio.

No escopo 3, entram outras emissões da cadeia de valor, conforme as atividades da organização e os limites de seu inventário. A inclusão de emissões de navios, transportadores e prestadores de serviços exige critérios consistentes sobre a relação dessas operações com o porto ou terminal.

A contribuição portuária para a descarbonização também passa pela coordenação operacional. Melhor planejamento das chegadas, disponibilidade de berços e movimentação de cargas pode reduzir a espera das embarcações e o consumo de combustível.

Essa interdependência está no centro do modelo colaborativo do DatamarLab: utilizar dados para compreender como uma decisão no porto pode influenciar as emissões do navio e, consequentemente, a pegada das mercadorias transportadas.

Exportadores, importadores e agentes de carga: medir a pegada de cada embarque

Exportadores, importadores e agentes de carga também possuem emissões próprias. O escopo 1 pode incluir combustíveis utilizados em veículos e equipamentos sob seu controle, enquanto o escopo 2 contempla a energia adquirida para suas instalações.

Quando utilizam transporte marítimo de terceiros, as emissões desse serviço integram o escopo 3. O desafio é determinar qual parcela da viagem corresponde a cada embarque.

Um mesmo navio transporta mercadorias de diversos clientes, com pesos, volumes, destinos e necessidades diferentes. Contêineres refrigerados, por exemplo, demandam energia para manter a temperatura durante o trajeto. Essas características precisam ser consideradas na atribuição das emissões.

O DatamarLab trabalha justamente na conexão entre a operação da embarcação e a carga transportada. Dados de conhecimentos de embarque, calados e horários de escala permitem detalhar a viagem e apoiar a distribuição das emissões entre os embarques.

Para as empresas de comércio exterior, essa informação pode ajudar a responder às solicitações de clientes, acompanhar metas ambientais e avaliar alternativas logísticas com critérios mais consistentes.

Regras de descarbonização ampliam a importância dos dados

A contabilização por escopos e as obrigações regulatórias têm funções diferentes. Os escopos organizam o inventário de uma empresa; cada regulamentação define quais atividades estão abrangidas, quem deve prestar informações e quais obrigações precisam ser cumpridas.

Na União Europeia, o EU ETS, sistema de comércio de licenças de emissão, passou a abranger o transporte marítimo em 2024. A obrigação foi introduzida gradualmente: 40% das emissões abrangidas de 2024, 70% das de 2025 e 100% das de 2026 em diante, com entrega das licenças no ano seguinte. Esses percentuais incidem sobre as emissões cobertas pelas regras do sistema, e não necessariamente sobre toda a viagem internacional.

O FuelEU Maritime, aplicável desde 2025, estabelece metas de redução da intensidade de gases de efeito estufa da energia utilizada a bordo, considerando o ciclo de vida dos combustíveis. A partir de 2030, também prevê o uso de energia em terra ou tecnologias alternativas de emissão zero para porta-contêineres e navios de passageiros abrangidos pela norma, durante a atracação nos portos europeus especificados pela regulamentação, observadas as exceções previstas.

No Brasil, a Lei nº 15.042/2024 instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa, o SBCE. A lei prevê implantação em etapas, e seu enquadramento deve ser acompanhado conforme a regulamentação aplicável às atividades e fontes emissoras.

Para a cadeia marítima sul-americana, esse cenário reforça a necessidade de dados rastreáveis e metodologias transparentes, capazes de apoiar tanto a gestão das emissões quanto a avaliação dos efeitos comerciais das regras.

Da viagem real à informação para decidir

A prova de conceito do DatamarLab foi desenvolvida a partir de uma viagem real do M/V EVER FAME, porta-contêineres operado pela Evergreen, em um percurso entre a Costa Leste da América do Sul e Singapura.

O trabalho utilizou dados operacionais da Datamar para modelar as emissões por trecho, considerando motor principal, motores auxiliares, contêineres refrigerados e caldeira. A análise contemplou nove cenários de combustível e velocidade, além da alocação de 1.177 conhecimentos de embarque.

O estudo mostrou como o perfil da rota, as características da carga e as condições operacionais podem produzir diferenças relevantes na pegada de carbono. Com essa abordagem, o projeto busca explicar os fatores que influenciam as emissões e permitir a comparação de alternativas.

A pesquisa está sendo ampliada para novas embarcações, com resultados previstos para um artigo científico e um Relatório Executivo.

Ciência e colaboração para apoiar a descarbonização

DatamarLab also maintains a collaboration with the USP RCGI Carbon Registry to develop Monitoring, Reporting and Verification methodologies, known as MRV, for the maritime sector. The goal is to strengthen the scientific basis of the analyses and investigate their application to emissions measurement and monitoring requirements.

This foundation connects the needs of the three groups in the chain: understanding vessel consumption, identifying efficiency opportunities at ports and providing greater clarity on the transport footprint of goods.

Through the Pioneer Sponsors program, participating companies can contribute to the project’s next priorities, gain early access to the Executive Report and be recognized as founding sponsors of the initiative.

By connecting science, data and decisions, DatamarLab seeks to offer an independent reference so that South American maritime transport can advance in decarbonization with consistent information and collaboration among its participantsO DatamarLab também mantém uma colaboração com o USP RCGI Carbon Registry para desenvolver metodologias de Monitoramento, Relato e Verificação — MRV aplicadas ao setor marítimo. O objetivo é fortalecer a base científica das análises e investigar sua aplicação às exigências de mensuração e acompanhamento das emissões.

Essa base conecta as necessidades dos três grupos da cadeia: compreender o consumo das embarcações, identificar oportunidades de eficiência nos portos e dar maior clareza à pegada do transporte das mercadorias.

Por meio do programa Pioneer Sponsors, empresas participantes podem contribuir para as próximas prioridades do projeto, ter acesso antecipado ao Relatório Executivo e ser reconhecidas como patrocinadoras fundadoras da iniciativa.

Ao conectar ciência, dados e decisões, o DatamarLab busca oferecer uma referência independente para que o transporte marítimo sul-americano avance na descarbonização com informação consistente e colaboração entre seus participantes.

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