Exportações brasileiras de madeira: da árvore que deu nome ao país a um comércio em transformação
June 8, 2026 | Posted by Datamar

A relação do Brasil com a madeira vai muito além das estatísticas de comércio. O próprio país tomou seu nome da árvore pau-brasil, espécie que ajudou a definir a fase inicial do comércio colonial. Cinco séculos depois, o setor é completamente diferente. A madeira nativa já não é a espinha dorsal do negócio. Hoje, o comércio exterior brasileiro de madeira é sustentado principalmente por florestas plantadas, processamento industrial e logística conteinerizada. Ainda assim, o elo simbólico permanece forte — e é justamente isso que torna o momento atual tão revelador.
Os dados do DataLiner, da Datamar, mostram que o Brasil exportou 123.673 TEUs de madeira e produtos de madeira entre janeiro e abril de 2026, queda de 6,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O recuo é real, mas o aspecto mais interessante da história é a forma como o comércio está sendo redirecionado por tarifas dos Estados Unidos, regras ambientais europeias e um sistema logístico ainda fortemente concentrado no Sul.
Isso importa porque a madeira continua ocupando um lugar relevante na identidade exportadora do Brasil, ainda que já não seja o segmento mais visível da pauta externa do país. No ranking da Datamar para as exportações conteinerizadas de janeiro a abril de 2026, a carne de frango liderou com 129.669 TEUs, seguida por algodão, carne bovina congelada e pasta química de madeira. Mesmo assim, a madeira permaneceu firmemente entre os principais itens exportados em contêiner. A madeira serrada ou lascada sozinha somou 40.215 TEUs no período, enquanto os compensados e outros produtos folheados ou laminados adicionaram mais 28.919 TEUs. Embora o Brasil seja amplamente associado, no exterior, à soja, ao petróleo bruto, ao minério de ferro, às carnes, ao café e à celulose, a madeira continua fazendo parte desse perfil exportador mais amplo, especialmente no comércio conteinerizado.
Gráfico 1 – Exportações brasileiras de madeira | Jan. 2023-abr. 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A mudança de longo prazo é tão importante quanto os números atuais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, o valor da produção florestal e da extração vegetal atingiu o recorde de R$ 44,3 bilhões em 2024. O que move o setor hoje é a silvicultura — ou seja, o cultivo e o manejo de florestas plantadas para fins comerciais — e não a extração de florestas nativas. O IBGE informa que esse segmento respondeu por 84,1% do valor total da produção florestal em 2024. Essa transformação industrial aparece de forma clara no mix do DataLiner: a madeira serrada ou lascada liderou as exportações brasileiras de madeira entre janeiro e abril de 2026, com 32,5% de participação de mercado, seguida por compensados e produtos laminados, com 23,4%, painéis de fibras de madeira, com 9,8%, e madeira em bruto, com 9,1%.
Tabela 1 – Principais produtos de madeira exportados pelo Brasil | Jan.-abr. 2026 | TEUs
Descrição | Valor acumulado no ano | Ano anterior | % de crescimento | % de participação de mercado |
|---|---|---|---|---|
Madeira serrada ou lascada | 40215 | 36029 | 11,6% | 32,52% |
Compensados, folheados e laminados | 28919 | 33903 | -14,7% | 23,38% |
Painéis de fibras de madeira | 12058 | 12511 | -3,6% | 9,75% |
Madeira em bruto | 11242 | 12808 | -12,2% | 9,09% |
Cavacos e resíduos de madeira | 9559 | 8075 | 18,4% | 7,73% |
Aglomerados / painéis OSB | 6657 | 6106 | 9,0% | 5,38% |
Tiras de madeira | 4920 | 9766 | -49,6% | 3,98% |
Obras de marcenaria e carpintaria de madeira para construção | 4134 | 6296 | -34,3% | 3,34% |
Folhas para folheamento | 3457 | 2523 | 37,0% | 2,80% |
Paletes e caixas | 800 | 1605 | -50,2% | 0,65% |
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Quando esse pano de fundo industrial fica claro, o detalhamento por destino se torna mais fácil de interpretar. A principal história do setor madeireiro no início de 2026 não é simplesmente a queda dos volumes. O que aparece é um setor mais dependente de alguns mercados e em retirada de outros. Os Estados Unidos continuaram como principal destino, com 22.571 TEUs, mas acompanhados de um forte recuo de 31,2%. A China também caiu com força, para 8.477 TEUs, baixa de 44,7%. Em sentido oposto, o México avançou 34,4%, a Itália 23,4%, a Índia 15,9%, a Espanha 113,0% e a Colômbia 100,4%. Isso se parece menos com uma perda generalizada de relevância e mais com um fluxo comercial tentando se reacomodar diante da pressão e buscar terrenos mais firmes em outros mercados.
Tabela 2 – Principais destinos das exportações brasileiras de madeira | Jan.-abr. 2026 | TEUs
País | Acumulado de 2026 | Variação no acumulado | % de crescimento | % de participação de mercado |
|---|---|---|---|---|
Estados Unidos | 22571 | -10214 | -31,2% | 18,25% |
México | 14354 | 3674 | 34,4% | 11,61% |
Itália | 12546 | 2377 | 23,4% | 10,14% |
Índia | 8675 | 1188 | 15,9% | 7,01% |
China | 8477 | -6841 | -44,7% | 6,85% |
Vietnã | 4049 | 595 | 17,2% | 3,27% |
Espanha | 3945 | 2092 | 113,0% | 3,19% |
Alemanha | 3709 | -852 | -18,7% | 3,00% |
Reino Unido | 3328 | -712 | -17,6% | 2,69% |
Colômbia | 3117 | 1562 | 100,4% | 2,52% |
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Os Estados Unidos continuam importantes demais para serem ignorados — e é exatamente por isso que a história recente das tarifas pesa tanto. O Ministério da Fazenda informou, no fim de 2025, que cerca de 44% das exportações brasileiras de madeira e produtos de madeira tinham como destino o mercado americano e alertou que a diversificação não compensaria plenamente os negócios perdidos ali. Desde então, o ambiente comercial ficou ainda menos previsível. Em 2 de junho, a Reuters informou que o governo Trump propôs uma nova tarifa de 25% sobre uma ampla gama de importações brasileiras sob a Seção 301, substituindo em parte o regime tarifário mais amplo adotado no ano anterior. Mesmo que a medida final traga exceções, os exportadores brasileiros de madeira agora enfrentam um mercado americano que continua grande, mas ficou muito mais difícil de planejar. Isso ajuda a explicar a alta do México nos números do DataLiner como parte de uma estratégia mais ampla de ajuste comercial.
Ao mesmo tempo, a Europa impõe um desafio de outra natureza. O problema ali não é uma barreira tarifária, mas uma barreira de conformidade. O Regulamento Europeu sobre Desmatamento abrange a madeira e exige que as empresas demonstrem que os produtos colocados no mercado europeu não estejam ligados ao desmatamento ou à degradação florestal. O prazo de implementação para a maior parte das empresas foi adiado em um ano, até 30 de dezembro de 2026, mas a obrigação central permanece inalterada.
Para os exportadores brasileiros, isso significa que rastreabilidade, geolocalização e due diligence deixaram de ser temas periféricos. Agora, esses fatores ajudam a definir se um embarque pode ou não seguir viagem. Isso torna o quadro da demanda europeia particularmente interessante. A Itália foi o terceiro maior destino da madeira brasileira entre janeiro e abril de 2026, a Espanha mais do que dobrou suas compras e, mesmo com demanda mais fraca na Alemanha e no Reino Unido, a Europa continua claramente relevante. A diferença é que os compradores do bloco filtram cada vez mais suas compras pela prontidão em compliance tanto quanto pelo preço.
Se os mercados estão mudando, a logística ajuda a explicar como o Brasil está absorvendo esse choque. Os portos que dominam as exportações de madeira se concentram claramente no Sul e no corredor do Atlântico Sul. Paranaguá liderou o ranking de janeiro a abril de 2026 com 38.696 TEUs, seguido por Navegantes, com 24.096, Itapoá, com 23.286, Santos, com 12.118, Itajaí, com 9.896, e Rio Grande, com 8.549. Juntos, esses portos respondem pela ampla maioria das exportações brasileiras de madeira em contêiner.
Gráfico 2 – Principais portos exportadores de madeira | Jan.-abr. 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
O Sistema Nacional de Informações Florestais mostra que as florestas plantadas superam 5% da área territorial apenas no Paraná e em Santa Catarina. Dados da FAO e estatísticas florestais brasileiras também apontam o Sul como o principal cinturão de florestas plantadas do país, especialmente no caso do pinus. Assim, o mapa logístico acompanha o mapa produtivo. A carga sai por Paranaguá, Navegantes e Itapoá porque a base florestal industrial está concentrada nas proximidades. O comércio de madeira é profundamente ligado à proximidade entre plantações, serrarias, fábricas de painéis e terminais conteinerizados. Essa é uma das razões pelas quais o corredor Sul continua tão dominante mesmo quando a demanda externa muda de forma abrupta.
Paranaguá ilustra especialmente bem essa relação. No material do DataLiner, o porto se manteve como principal canal exportador de madeira do Brasil entre janeiro e abril de 2026, com 38.696 TEUs, apesar de uma queda moderada de 3,2% na comparação anual.
Exportações de madeira por Paranaguá | Jan. 2023-abr. 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Materiais da própria autoridade portuária descrevem a madeira entre as cargas conteinerizadas relevantes movimentadas ali, ao lado de carne de frango, papel e produtos químicos. Isso diz algo importante sobre o papel do setor na economia brasileira. A madeira não é uma carga eventual nos portos do Sul. Ela é um dos produtos que ajudam a sustentar um sistema exportador agroindustrial mais amplo.
O ranking de exportadores reforça esse ponto. No ranking empresarial da Datamar para 2025, a Berneck S.A. Painéis & Serrados liderou com 13.070 TEUs, à frente de Dexco, Brasilmad Exportadora e TRC Agroflorestal. A Dexco apresentou um dos ganhos mais fortes do grupo, com alta de 52%, enquanto a Arauco Indústria de Painéis avançou 807% a partir de uma base baixa. Esse não é o perfil de um comércio dominado por vendedores de toras brutas. Trata-se de um setor liderado por fabricantes de painéis, processadores e companhias industriais de madeira. Esse também é o melhor modo de responder a uma pergunta comum sobre quem lidera esse comércio. No Brasil, a Berneck foi a principal exportadora de madeira no ranking da Datamar de 2025. Em escala global, a FAO informa que a China permaneceu como a maior exportadora de produtos florestais em valor em 2024.
Tudo isso ajuda a recolocar a madeira dentro do quadro econômico mais amplo do Brasil. As exportações do país continuam definidas, no imaginário público, por soja, petróleo, minério, carnes e outras commodities pesadas — e isso não deve mudar tão cedo. Mas a madeira ocupa um espaço intermediário importante entre matérias-primas e bens industriais. Madeira serrada, compensados, painéis de fibras e produtos de marcenaria estão ligados, ao mesmo tempo, à silvicultura, à manufatura e à logística conteinerizada. Isso faz do setor uma lente útil para entender como o Brasil compete internacionalmente: não apenas por escala, mas também por adaptação industrial, diversificação de mercados e eficiência logística.
É por isso que o momento atual é mais interessante do que uma simples queda anual poderia sugerir. O mercado americano ainda é o maior, mas se tornou mais difícil de contar como garantido. A Europa continua comprando, mas em condições mais rígidas. A China perdeu força, enquanto México, Itália, Índia, Espanha e Colômbia ganham espaço. Por baixo desses movimentos comerciais, o mesmo corredor logístico do Sul continua sustentando a engrenagem. Para um país batizado a partir da árvore conhecida em inglês como brazilwood tree, essa é uma evolução eloquente: o comércio brasileiro de madeira continua relevante, mas seu futuro depende menos da abundância em si e mais da capacidade de adaptação a tarifas, exigências de rastreabilidade e à disciplina prática da logística conteinerizada.
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