Exportações de café do Brasil: como os dados revelam novas oportunidades
April 10, 2026 | Posted by Datamar

Para quem acompanha as exportações brasileiras de café, os primeiros meses de 2026 trouxeram ao mesmo tempo um alerta e uma pista sobre para onde o mercado pode caminhar. Os dados do DataLiner, da Datamar, mostram que os embarques de café em grão recuaram 33,2% na comparação anual entre janeiro e fevereiro, para 14.886 TEUs. Ainda assim, a parte mais reveladora da história está no detalhamento desses números: a Alemanha ultrapassou os Estados Unidos como principal destino, Santos continuou respondendo por quase 80% da carga exportada, e o café solúvel seguiu estrategicamente relevante, apesar do início de ano mais fraco. Mais do que sinalizar uma simples desaceleração, os dados apontam para um mercado que está sendo redesenhado por política comercial, restrições logísticas e uma busca crescente por estratégias de exportação de maior valor agregado.
Gráfico 1 – Exportações de Café em Grão | Jan 2023 – Fev 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Os dados mostram que o mercado brasileiro de café está mudando
A primeira mensagem dos números do DataLiner é que a desaceleração das exportações brasileiras está longe de ser uniforme. A Alemanha importou 2.197 TEUs de café em grão do Brasil entre janeiro e fevereiro de 2026, queda de apenas 0,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já os Estados Unidos importaram 1.777 TEUs, uma retração de 50,1%. A Itália caiu 9,8%, para 1.438 TEUs, enquanto Japão, Bélgica, Turquia, Países Baixos, Coreia do Sul, Espanha e Reino Unido continuaram entre os destinos mais relevantes, embora com recuos mais acentuados. Esse padrão é importante porque sugere que o comércio exterior de café do Brasil está sendo redistribuído entre mercados, e não enfraquecendo no mesmo ritmo em toda parte.
Tabela 1 – Principais destinos das exportações de café
Valor | Variação | %Crescimento | %Participação de mercado | |
|---|---|---|---|---|
Alemanha | 2197 | -4 | -0.2% | 14.76% |
Estados Unidos | 1777 | -1,784 | -50.1% | 11.94% |
Itália | 1438 | -156 | -9.8% | 9.66% |
Japão | 1125 | -1,039 | -48.0% | 7.56% |
Bélgica | 967 | -141 | -12.7% | 6.50% |
Turquia | 906 | -472 | -34.3% | 6.09% |
Países Baixos | 467 | -416 | -47.1% | 3.14% |
Coreia do Sul | 462 | -160 | -25.7% | 3.10% |
Espanha | 459 | -483 | -51.3% | 3.08% |
Reino Unido | 389 | -66 | -14.5% | 2.61% |
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Essa leitura também combina com o pano de fundo da oferta. O escritório do USDA em Brasília projetou a safra brasileira de café 2025/26 em 65 milhões de sacas de 60 quilos, com o arábica pressionado por seca, irregularidade das chuvas e temperaturas elevadas, enquanto a produção de robusta/conilon tende a melhorar. Já a Conab informou que o Brasil exportou café para 156 países em 2025 e que a Alemanha já havia superado os Estados Unidos como principal destino naquele ano. Em outras palavras, o país entrou em 2026 com um perfil de safra diferente e com um mapa comercial em transformação.
Mesmo assim, os Estados Unidos seguem importantes demais para serem ignorados. Dados do USDA mostram que o Brasil respondeu por 35% das importações americanas de café não torrado em 2023, consolidando-se como o maior fornecedor individual do mercado dos EUA. O próprio USDA também descreve os Estados Unidos como o maior mercado consumidor de café do mundo em termos nacionais. Isso ajuda a responder uma das perguntas mais frequentes sobre o setor: cerca de um terço das importações americanas de café não torrado vem do Brasil, e é exatamente por isso que choques de política comercial naquele mercado repercutem tão rapidamente sobre o mix exportador brasileiro.
Uma leitura mais atenta dos dados atuais sugere que, embora os Estados Unidos continuem sendo um parceiro comercial fundamental, o comércio exterior brasileiro de café está se deslocando gradualmente para compradores mais resilientes, especialmente na Europa. O desempenho quase estável da Alemanha no início de 2026 é o sinal mais claro desse ajuste.
Santos ainda domina o comércio, e essa concentração tem um custo
A segunda grande mensagem derivada dos dados do DataLiner é o custo da concentração logística. Santos respondeu por 11.881 TEUs das exportações brasileiras de café em grão entre janeiro e fevereiro de 2026, o equivalente a 79,81% do total. O Rio de Janeiro apareceu bem atrás, com 2.451 TEUs, ou 16,46%, seguido por Itaguaí, com 451 TEUs, ou 3,03%. Todos os demais portos tiveram participação marginal. Para os exportadores brasileiros de café, isso significa que um único gateway ainda concentra a maior parte do fluxo comercial.
Tabela 2 – Portos exportadores de café por participação de mercado
Valor | Variação | %Crescimento | %Participação de Mercado | |
|---|---|---|---|---|
SANTOS | 11881 | -5,307 | -30.9% | 79.81% |
RIO DE JANEIRO | 2451 | -1,936 | -44.1% | 16.46% |
ITAGUAI | 451 | -55 | -10.9% | 3.03% |
SALVADOR | 62 | -109 | -63.7% | 0.42% |
PARANAGUA | 22 | 19 | 633.3% | 0.15% |
ITAPOA | 12 | -17 | -58.6% | 0.08% |
ITAJAI | 5 | 5 | 0.03% | |
PECEM | 1 | 1 | 0.01% | |
RIO GRANDE | 1 | 1 | 0.01% |
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Essa concentração importa porque os atrasos em Santos rapidamente se transformam em um problema para todo o setor. Segundo o Cecafé, a indústria arcou com R$ 66,1 milhões em custos logísticos adicionais em 2025, impulsionados por fatores como armazenagem extra, pré-stacking e detention. A entidade também afirma que 55% dos navios enfrentaram atrasos ou alterações de escala ao longo do ano, enquanto uma média de 1.824 contêineres estufados de café por mês deixou de ser embarcada, o equivalente a cerca de 602 mil sacas. Para uma cadeia exportadora fortemente dependente da logística conteinerizada, essas disfunções deixaram de ser uma questão periférica. Elas já fazem parte da equação de competitividade.
A boa notícia é que a resposta do setor público está se tornando mais concreta. Em março de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos abriu consulta pública para a concessão do canal de acesso ao Porto de Santos, em um projeto de 25 anos que prevê R$ 688 milhões em investimentos. O plano inclui aprofundar o canal para 16 metros em até três anos e para 17 metros em até seis, além de dragagem de manutenção, modernização da sinalização náutica e implantação de um sistema de gerenciamento e informação do tráfego de embarcações.
Meses antes, em agosto de 2025, o ministério e a Autoridade Portuária de Santos iniciaram as obras de derrocagem no canal de navegação, primeira etapa para ampliar o calado e permitir o acesso de embarcações maiores. Na frente conteinerizada, o governo federal também avançou com o STS 10, projeto de terminal concebido para acrescentar quatro berços e elevar em cerca de 50% a capacidade instalada de movimentação de contêineres em Santos, para 9 milhões de contêineres por ano.
Santos continua indispensável para as exportações brasileiras de café, mas a carteira de projetos em andamento mostra que o entendimento oficial mudou: o congestionamento já não é apenas um entrave operacional. Trata-se de uma restrição estrutural ao crescimento do comércio. Quando quase quatro em cada cinco TEUs exportados de café passam por um único porto, política de infraestrutura passa a ser também política de exportação.
O café solúvel é menor, mas aponta para um caminho de maior valor agregado
Os dados do DataLiner mostram que o Brasil exportou 1.754 TEUs de café solúvel entre janeiro e fevereiro de 2026, queda de 21,6% na comparação anual. O mesmo material da Datamar aponta que, em 2025, as exportações de café solúvel somaram 11.225 TEUs, recuo de 16,1% em relação ao ano anterior. À primeira vista, esses números não contam uma história de crescimento. Mas eles ganham outro significado quando lidos ao lado do panorama mais amplo da indústria.
Gráfico 3 – Exportações de Café Solúvel | Jan 2023 – Fev 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A Abics informou que as exportações brasileiras de café solúvel cresceram 1,3% em volume e 45,2% em valor no primeiro semestre de 2025. Já o mais recente relatório do Ministério da Agricultura sobre o comércio de café apontou que as exportações brasileiras de café solúvel atingiram o recorde de US$ 1,09 bilhão em 2025. A DatamarNews também noticiou que a Nestlé Brasil espera elevar em 27% os embarques de café solúvel a partir do país em 2026, apoiada em preços mais baixos do café verde e em uma demanda externa mais firme. Esses movimentos não anulam o desempenho mais fraco em TEUs no início de 2026, mas reforçam a importância estratégica do segmento.
Isso importa porque o café solúvel oferece ao Brasil uma rota mais clara para o crescimento com valor agregado. Em um mercado em que as margens do café verde podem se estreitar rapidamente e os riscos logísticos seguem elevados, uma base exportadora mais forte de café processado ajuda o país a capturar mais valor além da porteira. Os volumes imediatos ainda podem ser menores do que os do café em grão, mas a lógica comercial está cada vez mais clara: agregar valor ao produto tornou-se uma das vias mais plausíveis para ampliar a receita exportadora sem depender exclusivamente do aumento do volume bruto embarcado.
Por que o Brasil exporta tanto café
O Brasil exporta tanto café porque sua liderança é estrutural, e não conjuntural. Fontes do governo federal afirmam que o país é o maior produtor e exportador mundial de café há quase dois séculos. As projeções mais recentes do USDA também mantêm o Brasil com ampla vantagem sobre os concorrentes em termos de produção global. Essa escala é reforçada pela diversidade geográfica, por uma rede comercial sofisticada e pela capacidade de atender diferentes perfis de qualidade e categorias de produto.
Os próprios números da Datamar mostram a profundidade dessa estrutura exportadora. No ranking de real cargo owners dos últimos 12 meses, a Cooxupé lidera com 14.562 TEUs, seguida por Louis Dreyfus Company Brasil, com 10.840, Olam Agri, com 10.054, EISA, com 5.989, e NKG Stockler, com 5.415. Mais do que uma lista de grandes embarcadores, esse ranking sugere um ecossistema exportador maduro, que combina cooperativas, tradings multinacionais e agentes especializados, ajudando a explicar por que o Brasil permanece ano após ano entre os maiores exportadores de café do mundo.
A importância do café para o Brasil vai muito além do volume exportado
O café também é muito mais importante para a economia brasileira do que o volume embarcado, por si só, poderia sugerir. A Conab informa que as exportações brasileiras de café geraram um recorde de US$ 16,1 bilhões em 2025. Materiais do governo também apontam que a cadeia do café sustenta cerca de 8 milhões de empregos e que 72% dos produtores são pequenos proprietários e agricultores familiares. Isso faz do café não apenas uma relevante fonte de divisas, mas também uma base ampla de geração de emprego, renda e atividade econômica no meio rural.
Seu papel histórico é igualmente significativo. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café há quase dois séculos. Essa é uma das respostas mais claras para outra pergunta recorrente entre os leitores: o país ajudou a expandir a economia global moderna do café ao transformar a oferta em grande escala e com regularidade em um componente permanente do comércio internacional. O café não foi apenas um dos principais produtos de exportação do Brasil; foi também uma das commodities por meio das quais o país ajudou a moldar o próprio mercado global.
O que os dados comerciais dizem sobre a próxima fase de crescimento
Tomados em conjunto, os números do DataLiner apontam para três conclusões estratégicas. A primeira é que a diversificação de destinos se torna ainda mais importante quando o mercado americano continua essencial, mas mais volátil. A segunda é que resiliência logística já não pode ser tratada como uma questão de retaguarda, sobretudo quando Santos responde por quase 80% dos TEUs exportados de café pelo Brasil. A terceira é que segmentos de maior valor agregado, como o café solúvel, tendem a ganhar relevância à medida que os exportadores buscam proteger margens e ampliar receitas.
É essa a verdadeira oportunidade escondida em um início de 2026 mais fraco. O mercado exportador brasileiro de café não está apenas perdendo ritmo. Ele está revelando onde provavelmente surgirão as próximas aberturas: em uma composição mais equilibrada de destinos, em uma cadeia logística menos frágil e em uma estratégia industrial mais robusta, apoiada em produtos de maior valor agregado. É também por isso que inteligência comercial proprietária faz diferença. Ela não apenas mostra por onde o mercado passou. Ela ajuda a indicar para onde ele está se movendo.
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