O que o Brasil exporta para os Estados Unidos — e o que essa pauta revela sobre o mercado

October 16, 2026 | Posted by Datamar

O que o Brasil exporta para os Estados Unidos — e o que essa pauta revela sobre o mercado

O Brasil exporta para os Estados Unidos petróleo bruto, minério de ferro, produtos de ferro e aço, aeronaves, combustíveis, café, carne bovina, sucos, celulose, madeira e máquinas, entre outras mercadorias. É uma pauta que conecta o país tanto ao consumo das famílias quanto às cadeias industriais norte-americanas e que, justamente por ser tão diversa, não pode ser lida apenas pelo valor total exportado.

Uma queda no agregado pode esconder expansão em segmentos específicos, assim como um aumento em receita pode refletir preços maiores sem crescimento do volume físico. Para empresas que vendem ao mercado norte-americano, a análise ganha utilidade quando combina valor, toneladas, contêineres, produtos e corredores logísticos.

Como se distribuem as exportações brasileiras aos EUA

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC), o Brasil exportou US$ 24,10 bilhões aos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026, queda de 9,7% frente aos mesmos meses de 2025. A indústria de transformação respondeu por US$ 20,07 bilhões, ou 83,3% do total. O setor reúne alimentos processados, celulose e produtos metalúrgicos, além de bens como aeronaves e equipamentos.

Exportações brasileiras aos Estados Unidos por grande setor | Jan–ago 2026 | US$ FOB

Setor

Valor exportado

Participação no total

Variação vs. jan.–ago./2025

Indústria de transformação

US$ 20,07 bilhões

83,3%

-4,9%

Indústria extrativa

US$ 2,76 bilhões

11,5%

-28,9%

Agropecuária

US$ 1,19 bilhão

4,9%

-26,7%

Fonte: Secex/MDIC

Valores e participações arredondados. A categoria de outras atividades, não discriminada nesta tabela, representa aproximadamente 0,3% do total. A variação anual compara janeiro a agosto de 2026 com o mesmo período de 2025.

O recuo alcançou os três grandes setores, mas teve intensidades diferentes. Entre os dez produtos de maior valor exportado aos Estados Unidos no período, seis registraram queda, segundo levantamento da Amcham Brasil com base no Comex Stat. Petróleo bruto recuou 31,5%; produtos semimanufaturados de ferro ou aço, 4,3%; ferro-gusa, 8,1%; e celulose, 1,9%. Essas diferenças ajudam a explicar por que a pauta precisa ser analisada produto a produto.

O agronegócio também aparece espalhado por mais de uma categoria estatística. Parte das mercadorias originadas no campo é exportada após processamento e passa a integrar a indústria de transformação, o que torna insuficiente olhar apenas para a rubrica 'agropecuária' para medir o peso do setor.

Em 2026, o fluxo perde força — mas não em todos os segmentos

A retração brasileira no mercado norte-americano contrastou com o crescimento de 10,3% das exportações do Brasil ao mundo entre janeiro e agosto de 2026. Com isso, a participação dos Estados Unidos no valor total vendido pelo país passou de 11,7% para 9,6% na comparação com o mesmo período de 2025. Os EUA continuaram como segundo maior destino dos produtos brasileiros, atrás da China.

Agosto trouxe uma melhora no resultado em dólares, sem reverter a queda acumulada. Naquele mês, as exportações para os Estados Unidos cresceram 12,1% em valor, para US$ 3,19 bilhões, mas a quantidade física embarcada diminuiu 17,3% frente a agosto de 2025, segundo a Amcham Brasil. O aumento do preço médio ajudou a sustentar a receita; carne bovina, aeronaves, café e produtos semimanufaturados de ferro ou aço também tiveram avanços em quantidade no mês.

Os embarques em contêineres também recuaram, embora a queda tenha perdido força em agosto. Segundo os dados proprietários da Datamar, o Brasil exportou 228.583 TEUs para os Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026, volume 15,6% inferior ao registrado nos mesmos meses de 2025. Em agosto isoladamente, porém, os embarques chegaram a 32.367 TEUs, alta de 41,9% na comparação anual. O resultado mensal reduziu parte da retração acumulada, sem revertê-la. Como TEU mede unidades equivalentes a contêineres de 20 pés, e não o valor das mercadorias, essa série permite acompanhar especificamente o fluxo conteinerizado.

Exportações brasileiras em contêineres para os Estados Unidos | Jan–ago 2025 x jan–ago 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner.

Os recortes não medem a mesma coisa: valores FOB, toneladas e TEUs respondem a perguntas diferentes. As estatísticas públicas e os dados proprietários do DataLiner apresentados neste artigo, incluindo os rankings por porto e participante, abrangem janeiro a agosto de 2026. A comparação entre receita, peso da carga e movimentação conteinerizada exige manter essas unidades separadas.

Minério cresce, enquanto aço e celulose mantêm peso no comércio marítimo

Os dados mais recentes do DataLiner mostram desempenhos diferentes entre os principais grupos de mercadorias enviados por via marítima aos Estados Unidos. Entre janeiro e agosto de 2026, os produtos siderúrgicos lideraram em volume, com 5,32 milhões de toneladas métricas, alta de 0,8% frente ao mesmo período de 2025. O minério de ferro veio em seguida, com 3,78 milhões de toneladas e avanço de 62,0%, o maior crescimento absoluto entre os principais grupos.

A celulose somou 1,96 milhão de toneladas, praticamente estável (+0,9%), enquanto o petróleo bruto recuou 34,0%, para 1,66 milhão de toneladas. Também houve queda nos derivados de petróleo (-39,5%), na madeira (-33,9%) e nos sucos de frutas (-2,3%). Já as carnes cresceram 25,9%, embora movimentem um volume menor. O contraste ajuda a explicar por que a retração do comércio bilateral não se distribui da mesma maneira entre os setores.

Principais grupos de mercadorias exportados por via marítima do Brasil aos EUA | Jan–ago 2026 | toneladas métricas

Grupo de mercadorias

Volume 2026

Variação anual

Participação no volume

Produtos siderúrgicos

5.315.631 t

+0,8%

28,52%

Minério de ferro

3.779.584 t

+62,0%

20,28%

Celulose

1.964.526 t

+0,9%

10,54%

Petróleo bruto

1.664.778 t

-34,0%

8,93%

Derivados de petróleo

953.406 t

-39,5%

5,12%

Sucos de frutas

784.901 t

-2,3%

4,21%

Madeira

676.842 t

-33,9%

3,63%

Produtos químicos inorgânicos

537.587 t

-38,0%

2,88%

Produtos de pedra

371.608 t

-13,3%

1,99%

Carnes

310.597 t

+25,9%

1,67%

Fonte: DataLiner.

Os portos refletem a especialização das cargas

O peso de minério, aço, petróleo e celulose também aparece no mapa portuário. Santos liderou as exportações marítimas brasileiras aos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026, com 2,49 milhões de toneladas, apesar de queda de 22,2% em relação ao mesmo período de 2025. Ponta Ubu veio em seguida, com 2,23 milhões de toneladas e avanço de 83,1%. Itaguaí (1,95 milhão), Rio de Janeiro (1,71 milhão) e Tubarão (1,47 milhão) completaram os cinco primeiros lugares.

Esse ranking é diferente do que se vê quando a análise se limita a contêineres ou a uma única commodity. Terminais especializados ganham relevância porque cada produto segue uma lógica própria de armazenagem, acesso terrestre, equipamentos e serviços marítimos. Para o exportador, a comparação ajuda a identificar dependência de um corredor, alternativas logísticas e mudanças na distribuição dos embarques.

Principais portos nas exportações marítimas brasileiras aos EUA | Jan–ago 2026 | toneladas métricas

Porto

Volume

Variação anual

Participação

Santos

2.489.760 t

-22,2%

13,36%

Ponta Ubu

2.232.656 t

+83,1%

11,98%

Itaguaí

1.954.100 t

+16,0%

10,48%

Rio de Janeiro

1.711.408 t

+14,6%

9,18%

Tubarão

1.466.428 t

+53,7%

7,87%

Praia Mole

1.280.252 t

-29,1%

6,87%

Portocel

1.270.453 t

+12,0%

6,82%

Porto do Açu

1.051.438 t

+30,2%

5,64%

Pecém

963.863 t

+9,8%

5,17%

Paranaguá

494.592 t

+28,8%

2,65%

Itaqui

442.569 t

-64,4%

2,37%

Fonte: DataLiner.

Quem movimenta esses volumes? Os setores ajudam a contar a história

A leitura por empresa acrescenta outra dimensão porque mostra se um fluxo está distribuído entre muitos participantes ou concentrado em poucos operadores. Por confidencialidade, este artigo não identifica as companhias individualmente. Os volumes, porém, mostram a força de setores ligados à mineração, siderurgia, celulose e outras atividades industriais no comércio com os Estados Unidos.

Os cinco maiores participantes movimentaram individualmente entre 1,26 milhão e 2,23 milhões de toneladas de janeiro a agosto de 2026. O grupo reúne operações de mineração e siderurgia, além de uma grande empresa do setor de celulose. A nova extração permite atualizar os volumes e as posições do ranking, mas não apresenta valores comparáveis de 2025 para calcular a variação anual por participante.

Maiores volumes empresariais no fluxo marítimo Brasil–EUA | Jan–ago 2026 | dados anonimizados

Participante

Setor

Volume 2026

Participante 1

Mineração

2.232.656 t

Participante 2

Siderurgia

1.839.514 t

Participante 3

Siderurgia

1.694.787 t

Participante 4

Mineração

1.466.428 t

Participante 5

Celulose e papel

1.261.741 t

Fonte: DataLiner.

A concentração por empresa é particularmente útil para inteligência comercial. Se o volume de um produto cresce e os maiores participantes crescem ainda mais, há sinais de ganho de participação dentro daquele fluxo. Se novos embarcadores aparecem ou a concentração diminui, o mercado pode estar se abrindo para mais operadores. Esse tipo de leitura exige manter os mesmos filtros de produto, período, unidade e papel da empresa na operação.

A identificação nominal dos participantes, rankings completos, séries históricas e recortes adicionais por produto, porto, armador, origem e destino estão disponíveis mediante contratação do DataLiner, de acordo com as condições de acesso e uso da plataforma.

Tarifas tornam a análise por produto ainda mais importante

O quadro tarifário norte-americano mudou em 2026 e tornou mais arriscado tratar toda a pauta brasileira como se estivesse sujeita à mesma alíquota. A ordem executiva de 20 de fevereiro encerrou as tarifas adicionais fundamentadas na IEEPA abrangidas pelo ato, inclusive as medidas de 2025 relativas ao Brasil, mas preservou outros instrumentos, como as Seções 232 e 301.

Em 15 de julho de 2026, o USTR anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados bens brasileiros, sob a Seção 301. Outra medida, publicada no mesmo mês, previu 12,5% para o grupo de economias que inclui o Brasil, observadas as exceções. Segundo a síntese do MDIC de 24 de julho, as duas medidas podem somar 37,5% quando atingem a mesma mercadoria; produtos sujeitos às medidas setoriais da Seção 232 seguem tratamento distinto. A estimativa de que 52,7% da pauta ficariam fora dessas sobretaxas usa exportações de 2024 como base e não significa isenção das tarifas ordinárias. No acumulado de janeiro a agosto de 2026, produtos atingidos pelas sobretaxas mais elevadas tiveram queda de 29,1% nas vendas aos Estados Unidos, segundo a Amcham Brasil.

Para uma operação concreta, a empresa precisa conferir o código HTSUS, a origem, a data de entrada, as exceções aplicáveis e eventuais medidas adicionais. A própria alfândega norte-americana orienta a consulta às disposições do Capítulo 99 e aos comunicados atualizados de comércio. A NCM brasileira é um ponto de partida para a investigação, mas não substitui o enquadramento na nomenclatura dos Estados Unidos.

Da exposição ao mercado à busca por novos destinos

O peso dos Estados Unidos na receita de uma empresa pode ser muito maior do que sua participação na pauta brasileira. Por isso, medir exposição começa pelo próprio portfólio: quanto do faturamento exportador depende do destino, quais produtos estão envolvidos, qual margem eles geram, como os compradores se distribuem e que parte das vendas já está contratada.

A procura por alternativas também precisa partir do produto. Países com compras recorrentes, crescimento em períodos equivalentes e presença de fornecedores brasileiros formam uma primeira lista, mas a viabilidade depende de frete, tributos, exigências de acesso, prazo de entrega, adaptação comercial e capacidade real de absorção.

Do panorama nacional à investigação no DataLiner

É nesse ponto que os dados de embarque se transformam em inteligência comercial. O DataLiner permite aprofundar a análise do comércio marítimo por produto, país, porto, armador e empresa, conforme a cobertura disponível. Com filtros consistentes, o exportador pode comparar períodos, identificar quais setores e participantes estão ganhando espaço, acompanhar corredores logísticos e investigar outros mercados já atendidos por empresas do mesmo segmento.

Nas exportações brasileiras para os Estados Unidos, a nova série do DataLiner mostra queda de 15,6% no fluxo conteinerizado, ao mesmo tempo que o minério de ferro avançou 62,0% em peso no comércio marítimo. Os produtos siderúrgicos e a celulose, por sua vez, mantiveram volumes elevados, com variações próximas da estabilidade. Esses movimentos ajudam a explicar por que observar apenas o valor total exportado deixa de fora diferenças importantes entre os setores.

Com séries históricas, rankings e recortes detalhados, a empresa pode sair da pergunta ampla — 'o que o Brasil exporta para os Estados Unidos?' — e chegar às questões que orientam uma decisão comercial: quem está movimentando cada produto, por quais portos, em quais volumes, com que ritmo de crescimento e para quais mercados alternativos vale olhar.

Sharing is caring!