O que o Brasil importa dos Estados Unidos? Produtos, portos e mudanças no abastecimento

October 22, 2026 | Posted by Datamar

O que o Brasil importa dos Estados Unidos? Produtos, portos e mudanças no abastecimento

Uma embalagem produzida no Brasil pode começar com uma resina americana. A fabricação de celulose utiliza insumos químicos adquiridos no exterior. E parte dos combustíveis que movimentam a economia chega ao país por navio, mesmo com a expressiva produção brasileira de petróleo.

Essas conexões ajudam a entender o que o Brasil importa dos Estados Unidos: uma pauta que inclui produtos de petróleo, combustíveis sólidos, soda cáustica, fertilizantes, plásticos, químicos, máquinas e autopeças. São mercadorias que abastecem diferentes etapas da produção e do consumo brasileiros.

Para quem trabalha com compras internacionais, conhecer essa pauta é apenas o primeiro passo. Também importa saber como os volumes evoluem, por quais portos chegam e quais outras origens participam do fornecimento.

Os dados da Datamar mostram mudanças relevantes nesse abastecimento. Entre janeiro e agosto de 2026, as importações marítimas brasileiras provenientes dos Estados Unidos recuaram 14% em toneladas e 31,6% em TEUs, na comparação com os mesmos meses de 2025. Por trás desses resultados, porém, há produtos em expansão e uma mudança expressiva nas origens de determinadas compras.

Quais produtos o Brasil importa dos Estados Unidos?

No transporte marítimo, a resposta muda conforme o indicador observado. Em peso, predominam as cargas energéticas e os insumos químicos. Nos contêineres, os plásticos ocupam a primeira posição.

Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil recebeu 20,29 milhões de toneladas provenientes dos Estados Unidos, considerando as operações conteinerizadas e não conteinerizadas cobertas pelo levantamento. Produtos de petróleo e combustíveis sólidos representaram, juntos, 55,64% desse volume.

Principais grupos importados dos EUA por peso | Jan–ago 2026 | Toneladas

Grupo de produtos

Toneladas

Variação anual

Produtos de petróleo

6.822.345

−6,5%

Combustíveis sólidos

4.467.928

−4,1%

Soda cáustica

1.969.791

−2,7%

Fertilizantes

1.618.793

−14,5%

Químicos orgânicos

1.523.226

+51,1%

Fonte: Datamar, levantamento de comércio marítimo (Liner e Tramp); grupos selecionados.

No recorte conteinerizado, as importações totalizaram 150.807 TEUs. Um TEU equivale à capacidade de um contêiner de 20 pés, não à contagem de contêineres físicos. Plásticos responderam por quase um terço desse fluxo.

Principais importações conteinerizadas dos EUA | Jan–ago 2026 | TEUs

Grupo de produtos

TEUs

Participação

Plásticos

46.929

31,12%

Veículos e autopeças

12.827

8,51%

Químicos orgânicos

10.574

7,01%

Reatores, caldeiras e máquinas

10.278

6,82%

Borracha

7.693

5,10%

Fonte: Datamar/DataLiner (Liner); grupos selecionados.

Os dois recortes são complementares. Toneladas medem o peso das mercadorias; TEUs padronizam a capacidade equivalente dos contêineres. Para uma empresa que importa componentes ou resinas, o movimento de sua categoria pode ser muito diferente daquele observado nas grandes cargas energéticas.

Por que o Brasil importa esses produtos?

A composição das compras reflete necessidades de abastecimento, características técnicas e condições comerciais. Em alguns setores, a produção doméstica não atende integralmente à demanda. Em outros, a importação convive com uma indústria nacional capaz de produzir os mesmos grupos de mercadorias.

É o caso dos combustíveis. Produzir petróleo não significa dispor de todos os derivados nas quantidades necessárias. A oferta depende também da capacidade e da configuração das refinarias. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que o Brasil continuará importador líquido de derivados, especialmente diesel e nafta, mesmo com investimentos no refino.

Na agricultura, a necessidade de compras externas é estrutural: segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados, considerando todas as origens. Os Estados Unidos participam desse abastecimento, ao lado de outros fornecedores internacionais.

A indústria também demanda insumos específicos. O carvão metalúrgico utilizado na siderurgia precisa apresentar características adequadas à produção de aço, o que ajuda a explicar a necessidade de importação apontada pelo Ministério de Minas e Energia. Já a soda cáustica atende atividades como produção de celulose, alumina e produtos químicos, conforme a Abiclor.

Nos plásticos e químicos, a explicação inclui competitividade e condições de fornecimento. A Abiquim aponta capacidade ociosa na indústria química brasileira e identifica a competitividade como um desafio do setor. Portanto, não seria correto atribuir todas essas compras à ausência de produção nacional.

O que favorece os Estados Unidos como fornecedor?

Nos petroquímicos, uma parte importante da resposta está na disponibilidade de matérias-primas.

Segundo a agência americana de energia, a EIA, a expansão da produção de etano, associada ao crescimento do gás natural e aos investimentos em infraestrutura, ampliou as exportações americanas ao longo da cadeia de etano, etileno e polietileno. A agência também destaca as vantagens de custo que a produção a partir do etano pode apresentar em relação a outras matérias-primas.

Essa estrutura ajuda a explicar a presença dos Estados Unidos no fornecimento de resinas. Para o comprador brasileiro, entretanto, a escolha depende da operação completa: especificação, preço, frete, tributação, prazo e negociação.

A capacidade de produzir competitivamente não garante que uma origem será sempre a melhor opção para todas as empresas. Por isso, acompanhar o comportamento dos fluxos é uma forma de identificar mudanças que merecem investigação comercial.

Por que as importações dos Estados Unidos caíram?

A retração de 2026 foi concentrada em determinados produtos. Nos contêineres, os plásticos responderam por aproximadamente 76% da queda líquida total: passaram de 99.912 TEUs entre janeiro e agosto de 2025 para 46.929 TEUs no mesmo período de 2026.

Em toneladas, o petróleo bruto teve uma contribuição expressiva. As compras caíram de 2,38 milhões para 989 mil toneladas, diferença equivalente a cerca de 42% da redução líquida do peso total importado dos Estados Unidos.

Esses números identificam onde ocorreu a queda, mas não explicam sozinhos suas causas. No petróleo bruto, por exemplo, seria necessário cruzar as demais origens e as operações das refinarias para avaliar mudanças na composição do abastecimento.

Nos polímeros de etileno, os dados permitem avançar: o Brasil importou mais do produto no conjunto das origens, enquanto comprou menos dos Estados Unidos.

Polietileno: compras crescem, mas os EUA perdem participação

Entre janeiro e agosto de 2026, as importações marítimas brasileiras de polímeros de etileno somaram 1,34 milhão de toneladas, alta de 4,5% sobre igual período de 2025. As compras provenientes dos Estados Unidos, por sua vez, caíram 57,3%.

Importações marítimas brasileiras de polímeros de etileno por origem | Jan–ago 2025 vs. 2026 | Toneladas

Origem

2025 (t)

2026 (t)

Variação anual

Estados Unidos

950.317

405.535

−57,3%

Argentina

156.886

235.910

+50,4%

China

31.923

146.280

+358,2%

Arábia Saudita

25.179

127.572

+406,7%

Total de todas as origens

1.281.987

1.340.019

+4,5%

Fonte: Datamar, levantamento de comércio marítimo (Liner e Tramp). Total inclui outras origens.

Com isso, a participação americana passou de 74,1% para 30,3%. Argentina, China e Arábia Saudita ampliaram seus volumes, mostrando uma mudança na composição das origens que abastecem o mercado brasileiro.

O movimento ocorreu em um período de alteração nas condições de importação. O Brasil aplicou direito antidumping provisório a determinadas resinas de polietileno dos Estados Unidos e do Canadá em agosto de 2025, seguido de medida definitiva em abril de 2026. A medida abrange produtos e classificações fiscais específicas, não necessariamente todos os polímeros de etileno reunidos na categoria mais ampla dos dados da Datamar. Essa mudança é relevante para a análise, mas não comprova, isoladamente, a causa da retração.

Para a área de compras, a conclusão prática é que a queda de uma origem não significa necessariamente redução do mercado importador. Neste caso, outras origens cresceram enquanto os Estados Unidos perderam participação.

Isso oferece referências para pesquisar fornecedores, sem pressupor que as mercadorias sejam equivalentes ou que as alternativas tenham menor custo. Essas avaliações exigem detalhamento do produto e das condições comerciais.

Por quais portos chegam as importações dos Estados Unidos?

A distribuição portuária também muda conforme o perfil das cargas.

Em toneladas, incluindo carga conteinerizada e não conteinerizada, Santos liderou o levantamento entre janeiro e agosto de 2026, com 3,19 milhões de toneladas e 15,72% do total. Na sequência apareceram Praia Mole, com 1,82 milhão de toneladas, e Itaqui, com 1,63 milhão.

Nos contêineres, a concentração em Santos foi muito maior: 57,35% dos TEUs, seguido por Manaus e Itapoá.

Principais portos de entrada de contêineres dos EUA | Jan–ago 2026 | TEUs

Porto

TEUs

Participação

Variação anual

Santos

86.494

57,35%

−24,8%

Manaus

13.043

8,65%

−38,5%

Itapoá

11.316

7,50%

−45,8%

Rio de Janeiro

10.006

6,63%

+10,3%

Itajaí

8.839

5,86%

+0,8%

Fonte: Datamar/DataLiner (Liner); classificação de portos da base.

Um mesmo porto pode apresentar tendências diferentes nos dois indicadores. Santos cresceu 2% em toneladas, mas recebeu menos TEUs. Paranaguá avançou 40,9% em peso, enquanto o fluxo conteinerizado recuou 25,1%.

Para quem planeja uma importação, isso reforça a importância de observar os portos utilizados pelo seu produto. O resultado agregado de um local pode refletir cargas e operações distintas das que fazem parte da cadeia de abastecimento da empresa.

Como usar esses dados nas decisões de compras?

O exemplo dos polímeros de etileno mostra o valor de acompanhar produto, origem e período em conjunto. Uma empresa que observasse apenas a queda americana poderia interpretar o movimento como retração geral das compras. A comparação com outras origens revela um cenário diferente.

O próximo nível de investigação envolve os participantes e a logística: quais empresas aparecem nos fluxos, por quais portos recebem as cargas e com que regularidade realizam suas operações.

O DataLiner permite explorar os fluxos marítimos cobertos pela Datamar por dimensões como produto, empresa, país, porto e armador. Esses cruzamentos ajudam a direcionar a pesquisa de fornecedores e o acompanhamento de concorrentes.

Entender o que o Brasil importa dos Estados Unidos é, assim, o começo de uma análise de abastecimento. Os dados ajudam a identificar onde o mercado muda e quais perguntas levar à negociação, desde a concentração em uma origem até a presença crescente de outros fornecedores.

Quer acompanhar essas mudanças no seu setor? Solicite uma demonstração do DataLiner e conheça as análises de produtos, empresas, origens e portos disponíveis para apoiar suas decisões de compras internacionais.

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